A dança das cadeiras

out 03

O debate ocorrido na noite de ontem deixou claro alguns pontos bem claros acerca a necessidade de modificação das regras do jogo. Regras estruturais, devo salientar. Refiro-me precisamente ao início do debate da rede Bobo de televisão, em que após a discussão inicial entre o Eduardo Jorge e o pigmeu bigodudo. O Levy, então, chama a Luciana Genro para o debate, praguejando que iria enquadrá-la. Acusa-a de faltar com a palavra, afirmando que o combinado era que, no último debate, ela haveria de questioná-lo sobre economia.
Revendo o debate anterior, há sim esse mesmo comentário, em que o candidato Levy resmunga sobre o questionamento feito sobre famílias homoafetivas, e que falar sobre economia estava “tudo bem”.
Passei horas refletindo sobre essa possibilidade do debate já ser arquitetado minutos antes (ou horas, vai saber), com respostas previamente determinadas e como essas interações acontecem no debate “ao vivo”.
No debate de ontem (02/10/2014), ficou nítido que isso acontece, seja pela afirmação do candidato Levy, seja pela forma em que o Everaldo se dirige ao Aécio. Isso, entretanto, é verificável poucas vezes quando se trata de partidos “maiores”.
Quando defrontados, Aécio se espantou com o tom acusatório da candidata Marina, que mencionou o mensalão tucano para possibilidade de reeleição. Alias, quando as perguntas entre Dilma-Aécio e Dilma-Marina (e vice e versa), o tom de incerteza permeava as respostas, como se os candidatos raciocinavam sobre quais palavras deveriam dizer.
Em relação aos demais candidatos de direita houve uma complacência sem igual: era uma conversa de compadres. O perguntador visivelmente armava a bola para os demais candidatos marcarem o gol. Destaques de Everaldo e Levy, como articuladores das maiores jogadas, finalizadas pelo Aécio Neves. Nada contra, afinal, são as regras do jogo. E são essas regras que devem ser mudadas.
O sistema de coligações funciona justamente para que os partidos unirem forças, com intuito de verificarem as afinidades políticas e a possibilidade de união sobre os planos de governo, possibilitando as articulações viáveis para elegibilidade. Um sistema de quadros e massas.
(Quadros: sistema político/eleitoral para angariar determinadas pessoas “chaves” para o partido. Como exemplo, pensadores, líderes carismáticos, etc.; Massas: sistema político/eleitoral para angariar o maior número de pessoas possível para determinado partido político).
O ponto nevrálgico é: o lançamento da candidatura de pessoas específicas somente para, durante a campanha eleitoral, utilizar-se dos debates e da dualidade de ideias para articular outras questões políticas, sem coligações prévias. Quando Everaldo e Levy questionam o candidato tucano, parece um discurso ensaiado, em que as perguntas são pontuais e as respostas, objetivas e firmes, como se previamente preparadas e estudadas.
E o que há de mal nisso?
Simples: falsa sensação de confiança. Se há um acordo prévio para as questões a serem debatidas, não há debate, e sim um discurso direcionado, específico para determinada casta/setor.
Destaque para a gafe cometida por Everaldo que, mesmo em um tema específico, levantou questões transversais em um tom já direcionado às críticas a serem formuladas pelo Aécio e, em seguida, ao ser corrigido pelo “mediador”, simplesmente abriu mão de quaisquer considerações para um simples: “o que você acha”.
Esgota-se o debate em todos os níveis possíveis, seja pela não apresentação de propostas de Brasil, seja pela polarização e estimulação das rivalidades existentes. Enfim, um jogo que se joga sem qualquer tipo de parâmetro melhorativo, apenas reproduzindo todo contexto eleitoreiro já sedimentado.
Talvez esteja sendo rigoroso demais, mas creio fielmente de que, se é possível dizer que houve um “ganhador” do debate, esse seria o Eduardo Jorge, que foi o único realmente sincero ao tentar debater sobre políticas públicas e propostas concretas de mudança. Aos demais, apenas os velhos debates superficiais sobre corrupção, aparelhamento estatal e outras atuações não tão lícitas de agentes públicos.
Alias, a Teoria do Domínio do Fato se mostrou presente em todas os debates que envolviam corrupção, ainda que de forma totalmente errônea e sem qualquer parâmetro metodológico, em um verdadeiro panis et circenses, com direito à gaguejo e exaltação além do prazo de resposta.
Por fim, mas não menos importante, as propostas superficiais dos principais candidatos residiam em um discurso paradoxal: se a Dilma não fez nada nesses quatro anos de governo, como o Aécio e a Marina irão dar continuidade com os programas sociais feitos pelo PT?
Minha análise final (e conclusiva): parabéns ao Eduardo Jorge, por apresentar propostas concretas de Brasil.

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